15/07 - Dia do Homem!

A data parece estranha, e
até mesmo imprópria, em um momento que se noticia elevados índices de violência
contra as mulheres, pessoas LGBTQIA+ e atitudes de discriminação fundamentadas
pela cultura machista.
Mas a data que passou a ser comemorada no ano de 1999, aqui mesmo na América do sul, em Trinidad e Tobago (nação caribenha próxima da Venezuela), tinha outros objetivos ao invés de exaltar a masculinidade, uma superioridade que nunca existiu, a força física, ou qualquer outra característica defendida como excepcional por muitos homens.
Inicialmente, o idealizador e médico Dr. Jerome Teelucksingh buscava conscientizar os homens acerca da importância dos cuidados com a saúde, além de defender a igualdade entre os gêneros.
Sobre saúde do homem, não poderia deixar de mencionar o câncer de próstata, por ser uma doença específica do gênero, com índices elevados de mortalidade, que poderiam ser menores se minimizássemos certos padrões culturais acerca da masculinidade.
A principal barreira a ser vencida nesse sentido é o convencimento da importância de exames como o de toque retal, exame esse capaz de detectar alterações da próstata de forma rápida e assertiva, e em muitos casos, em estágios iniciais da doença, possibilitando maiores chances de tratamento e recuperação.
Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), apontam que teremos entre 2020 e 2022, cerca de 65.840 novos casos de câncer de próstata por ano na população brasileira. Esse tipo de câncer corresponde a 29% dos casos totais de neoplasia entre homens.
O INCA também adverte que, somente no ano de 2019, 15.983 homens perderam a vida por causa do câncer de próstata.
Estima-se atualmente que, 1 em cada 9 homens será diagnosticado com a doença.
Outro tipo de câncer pouco comentado e divulgado em campanhas, é o câncer de pênis. Dados no mesmo instituto apontavam que, somente no ano passado, havia a estimativa de que haveriam 1.130 novos casos. Como fatores de risco para o desenvolvimento desse tipo de doença são considerados: a higienização no pênis feita de forma inadequada, ou com frequência insuficiente, além da contaminação pelo vírus HPV.
Ainda hoje, em 2021, não é raro ouvir um homem que se classifica como “conservador” afirmar que prefere a morte a se submeter ao toque retal. É triste, mas é um fato. Precisamos mudar logo essa realidade, afinal, sabemos que um exame médico não altera a orientação sexual, muito menos a honra de um ser humano, não é mesmo?
No campo das questões de igualdade de gênero, como menciono no início desse texto, seria impossível não falarmos sobre a saúde emocional, campo que muitas vezes segue ignorado pela maioria dos homens.
Sabe-se que os homens nascem em uma cultura patriarcal que defende valores questionáveis atualmente, que são nocivos à subjetividade. Somos ensinados que homens não choram, não podem demonstrar fraqueza. Somos estimulados à competitividade, à posse e dominação da mulher e dos filhos. Somos educados a sermos responsáveis exclusivos pelos proventos da família. Somos forçados a ignorarmos nossas dores subjetivas, a termos vergonha e repulsa à nossa sensibilidade. Aprendemos cada vez mais, pelo fácil acesso à pornografia, que a objetificação da mulher é algo habitual, sendo a performance sexual dos filmes, algo a ser alcançada com as mulheres na vida real.
- Mas William, o que é ser homem hoje? Qual é o papel que o homem deve ocupar? Ser homem não é ser machão? O homem não deve sustentar as despesas de uma casa? Não devemos educar nossos filhos com os mesmos valores que fomos criados?
Vamos pensar pouco mais...
Dados apresentados pelo documentário “o silêncio dos homens”, mostram estatísticas impressionantes:
I. Homens cometem quatro vezes mais suicídio que as mulheres. Há também dados que mostram que as tentativas de suicídio masculina tendem a serem mais agressivas, fator que eleva as chances de óbito.
II. 83% dos homicídios e acidentes tem o envolvimento direto de homens. Consequentemente, os homens vivem cerca de 7 anos a menos que as mulheres.
III. 17% dos homens tem algum problema relacionado à dependência alcóolica.
IV. A População carcerária brasileira é formada por 95% de homens.
V. 6 em cada 10 homens admitem ter algum sofrimento relacionado a ansiedade, depressão, ou vício em pornografia, porém, apenas 3 em cada 10 homens costuma falar sobre o que realmente sente aos amigos, familiares, ou outras pessoas.
VI. Quando um homem sofre abuso sexual (a maioria em sua infância), leva em média 20 anos para relatar o abuso a alguém. Sim, meninos sofrem muito abuso sexual na infância.
Esses dados não são suficientes para demonstrar que algo está errado?
Outro ponto importante se refere à homofobia. Raros, se não inexistentes, são os casos de mulheres que agridem a pauladas pessoas homo afetivas nas ruas do País, em geral, esses crimes são cometidos por homens. A Psicanálise já nos mostrou que, em grande parte, estamos falando de um sintoma desse processo de subjetivação doentio em que os homens são inseridos, onde o sujeito, em contato com impulsos sexuais que se direcionam a uma figura do mesmo sexo, e não aceitando tais impulsos, os mesmos se convertem em agressão e destruição do outro que não é aceito como objeto de desejo.
Temos passado por muitas mudanças nas últimas décadas. O movimento feminista tem avançado significativamente em pautas históricas em defesa da igualdade entre gêneros com reconhecimento da igualdade de direitos. Nesse sentido, a luta das mulheres serve como exemplo pela conquista da liberdade (emocional) dos homens.
Uma data como o dia do homem é importante como oportunidade de discussão acerca da desconstrução do homem como o conhecemos. Não se trata de transformar o homem em outra coisa, mas sim, em reduzir o que há de nocivo em seus valores e conceitos, com potencial dano ao próprio sujeito e à sociedade. Trata-se de permitir o diálogo entre Pai e filho, em defender o direito de pensar e agir diferente do enquadramento e estereótipo masculino da sociedade, trata-se de parar com essa história de que “o homem tem que”, e outros jargões. Todo esse sistema gera a incapacidade de o homem estruturar-se como sujeito, sendo cada vez mais castrado ao ponto de não conseguir mais simbolizar o que gera sofrimento. E qual é um dos principais resultados disso? Agressividade!
Para alcançarmos essa igualdade, se faz necessária a desconstrução subjetiva masculina, para que, enfim, possa surgir o novo homem com liberdade emocional.
Defendo a ideia de que esse dia importante deveria ser nomeado como o “Dia do novo homem” ou “Dia do homem desconstruído”. Dessa forma, ficaria claro que não se trata de um dia para exaltação dos ideais machistas.
Então, para você que está disposto a passar por essa desconstrução, e para todos os que estão nesse processo, Feliz dia do (novo) Homem!
Fontes:
https://www.inca.gov.br/campanhas/cancer-de-prostata/2020/saude-do-homem
https://www.youtube.com/watch?v=NRom49UVXCE